Tarde de leituras perigosas

Até onde eu sei, sou a primeira pessoa da minha família com um título de Doutorado, e poucos de meus amigos seguiram a carreira acadêmica. Me parece uma situação comum entre meus colegas de carreira, esta novidade, ser a primeira doutora (com doutorado, não sou médica…) da família. Neste contexto, estou por alguns bons anos já explicando para pessoas queridas o que é pesquisa, o que faz a academia no Brasil, para que serve aprender a pensar com rigor, já que a rigor todo mundo (com escolaridade ou não) pensa.

Neste sentido para além de ler o que preciso ler para desenvolver a pesquisa pela qual me interesso, gosto também de ler sobre gente pensando a pesquisa que desenvolvemos no Brasil. Nem sempre são elogios, mas é sempre bom saber o que estamos pensando do trabalho que desenvolvemos.

Então resolvi criar a Tarde de Leituras Perigosas, que se resume a ler livros que analisam e muitas vezes criticam a nossa produção científica. Terças feiras das 14h as 17h estarei praticando o insidioso hábito da leitura. O livro que escolhi para começar é:

– O Colapso do Figurino Francês de Nildo Ouriques.

Eu entrei em contato com este livro através da querida Profa. Paula Vermeersch. Como de costume, as conversas sobre a natureza de nosso trabalho acadêmico e as análises e leituras possíveis da atividade intelectual em nossas terras acontecem mais nos nossos espaços de convivência, entre amigos e colegas acadêmicos do que em nossas reuniões de trabalho.

Sendo assim, pensei na atitude mais simples possível que podemos ter em relação a qualquer reflexão que abraçou a tecnologia da escrita, vou ler. A única diferença agora, é que isso ganhou um espaço. Lerei com dia e hora marcada e tenho disposição de compartilhar a leitura que se realizará com quem puder estar presente.

Então esteja convidada/o: nos dias 14 e 28 agosto , e nos dias 4, 11, 18 e 25 de setembro  de 2018 estarei realizando leituras perigosas. Se você quiser vir, estaremos na sala 204 (1 andar) do CLE-UNICAMP, o tempo que a gente tem é das 14h as 17h.

liberdade para pensar

Participar da vida de um centro de pesquisas que olha para sua produção intelectual buscando as novidades é uma ideia incrível. O centro de pesquisa viabiliza a possibilidade de uma carreira que solicita que você desenvolva pesquisa inédita e interdisciplinar, a carreira de Pesquisador. É certo que se estivesse em um instituto ou em uma faculdade estaria mais próxima da linguística, que adoro.

Trabalhar intelectualmente nestas condições é um grande presente, porque nos dá a dimensão clara do risco que se corre ao pensar de maneira autônoma e articulada na direção de algo novo.

Imagino que este tipo de percepção do trabalho acadêmico, onde trabalho, se deve em parte à influência do professor Michel Debrun. O seu interesse pelos processos de auto-organização permite entender os elementos que participam das descobertas científicas e também as mudanças de paradigma na tradição acadêmica. A escrita do Debrun promove um interesse rigoroso pelo novo e pelas mudanças.

Como algo surge assim, como dizer, do nada? Como é possível que um sistema de repente ganhe novas dinâmicas, e se modifique?

Este post é para celebrar a liberdade de pensamento, de estudo e de escrita  em que vivo. Agradecer aos colegas pelas boas conversas e por acompanharem os desafios da pesquisa com a sobriedade e a loucura que a filosofia permite.

Ah sim!

Como trabalhar com diferentes grupos sociais, inseridos em diferentes dinâmicas culturais, que falam línguas diferentes das que falamos?

Estou convencida que é com muito respeito. Buscando encontrar pontos objetivos que ao serem alcançados fortalecem a vida comunitária tradicional e ajudam a expandir a produção científica.

Comunidades e lideranças tradicionais, que muitas vezes pensam de forma rigorosamente distinta das referências que encontramos na academia, podem ser grandes aliados em um processo de crítica pos-colonial e quem sabe de descolonização.